A elegância do “Que se f*da!”

Longe de polémicas, porque sei que as há. Longe de querer ser arrogante ou desrespeitador com quem lê este texto. Longe de ofender a língua portuguesa com vernaculidades. Mas, principalmente, longe de ser politicamente correto. Antigamente, tocavam-se nas campainhas dos vizinhos e fugia-se. Ríamos. Atiravam-se balões de água uns contra os outros. Gargalhávamos. Brincava-se às escondidas, ao “macaquinho do chinês” (já nessa altura se adivinhava o porquê da sua nacionalidade). Acima de tudo, havia pureza. Ingenuidade. Porém, quando alguém se aleijava, siga de limpar as lágrimas, puxar de um papel para secar o sangue e adiante com a brincadeira. Porquê? Porque, para nós, aquilo era se não mais do que uma batalha, onde caíamos e tínhamos de aprender, num segundo, a saber levantarmo-nos, respirar e enfrentar novos obstáculos. Já naquele tempo, aqui dentro, soavam vozes que diziam “que se f*da. Vamos embora!” e a nossa fúria de querer vencer comandava os nossos instintos.

E agora? Será assim tudo tão diferente? Apesar de termos crescido, estudado, licenciado, arranjado os nossos trabalhos, sermos adultos, a bem dizer. Será que alguma coisa mudou? Vemos as crianças brincar na rua como antes? Vemos a bola rolar no recreio do bairro tão alegremente como fazíamos? (Independentemente da nossa orientação sexual, independentemente do que acreditávamos ou daquilo que os nossos pais ganhavam). No entanto, agora, no tempo presente, eu sei o que tenho à minha volta. Uma sociedade ainda mais infantil do que outrora, uma classe de jovens à espera que a primeira estrela caia do céu, enquanto fumam um charro, uma classe trabalhadora que vive das greves para receber o mesmo ordenado ao final do mês, quando, na verdade, só pioram o mercado de “emprego”… É isto que andamos a construir todos os dias? Anos após ano? Olhar para as redes sociais e ver que ao mínimo insulto há discussão em praça pública com direito a debate televisivo? É uma geração, ou a geração, talvez seja o mais correto, de que tudo tem de ser eximiamente bem pensado para não ferir as suscetibilidades de quem temos ao lado.

Se antes vivíamos na ignorância do que nos acontecia, atualmente vivemos na obsessão de justificarmos todos os passos que damos para não nos aclamarem de criminosos depois de termos dado um mergulho na praia com uns calções amarelos às bolas cor de rosa, porque afinal é demasiado paneleiro para aquilo que os restantes “machos” vestem. Sabem que mais? “Que se f*da”. É esta a elegância do prato que temos de comer hoje em dia. A graciosidade de não termos medo de seguirmos os nossos objetivos, focarmo-nos no essencial, sairmos da nossa zona de conforto, entrarmos no perigo, aventurarmo-nos nos riscos da vida e sermos, vestirmos, dizermos o que melhor nos define. É difícil? Não. Para nós? De todo. E para os outros? Sim, sem dúvida. Por isso, estamos a redefinir uma sociedade de marés fáceis. Hipócrita. Que vive às custas daquilo que os demais pensam, comem, vestem.  Construímos, todos os dias, uma classe civilizacional recheada de má etiqueta que se rege pelos ideais das ações moralmente corretas, quando em casa são os primeiros a infringir a lei do que, por obra do divino, definiram como base social. É realmente um sentimento ácido ver os grandes problemas mundiais passarem ao lado de verdadeiras atenções, mas ver a cada segundo notícias da cor mal escolhida que a rainha de Inglaterra levou vestida para ir à casa de banho.

Sabem que mais? Há, no fim de tudo isto, uma maneira muito simples de resolvermos os nossos problemas e mostrarmos a tudo e a todos os que nos rodeiam quem nós somos e aquilo que queremos para as nossas vidas, sem receios, sem medos e sem ficarmos pesados na consciência.  O que é? A firme elegância de, com brio e respeito, dizermos bem alto “Que se f*da!”.

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