E tudo o Natal sonhou…

            Londres. Luzes. Neve. Dia 24 de dezembro. 2010. Era, por isso, véspera de Natal em terras inglesas e as famílias acomodavam-se no calor das lareiras. Não seria importante o ano em que tudo acontecera. Era a magia que nascia a cada recanto da cidade, com espetáculos de circo e iluminações. Os mercados mais encantadores, com um retoque de neve aveludada nas telhas das habitações. Não havia como fugir àquele brilho inspirador de ver os flocos, gélidos e carinhosamente desenhados, caírem sobre toda a metrópole. Ouvia-se tocar, um pouco por todas as ruas, fascinantes cantigas que transpiravam fantasia. “We wish you a merry Christmas…” e tudo se vestia alegremente do espírito natalício.

            Em casa, numa das que ali se perfilava no Bairro Harvey, um dos mais bem vistos, o pequeno Benjamin acabara de guardar a caneta numa gaveta do quarto, fechara o envelope e, com os pés enfiados numas meias de lã, correu até à árvore de Natal, na sala, para, com os dedinhos esticados em pontas, lá conseguir pendurar a carta num do pinheiro iluminado a rigor para a ocasião.

            “Papá? O Pai Natal traz sempre o que pedimos?”

            “Anda cá.” – disse-lhe, ajoelhando-se frente dele. – “Nunca tenhas medo daquilo que pedes. Se, com força, acreditares naquilo que pedes tudo está ao teu alcance.”.

            Lá fora estava frio, lá dentro um quente reconfortante. Depois do jantar, um programa de televisão familiar, um sofá com algumas mantas quentes, brinquedos espalhados no chão e, não faltando, obviamente, uns doces na mesa, sentindo-se subtilmente um cheiro, de açúcar com canela, agradável, que se enlaçava no olhar palpitante daquele amor de pai e filho. Estavam sozinhos e sentiam falta de, mas tentavam esquecer a ausência de quem os fazia felizes. Já estavam habituados a lidarem com a situação, todos os anos. Era duro.

            As noites, em solo londrino, sempre foram muito longas. Ainda para mais na época em questão. O frio fazia pedir um chocolate quente, uns biscoitos, uma história adocicada e uns beijinhos na face para acabar em beleza. Foi assim que Carlos adormeceu o pequeno Benjamin. Pertencia-lhe. Todos os dias só os dois. O que mais dizer? Só se ouviu, por fim, a porta do quarto fechar-se delicadamente. Lua cheia e um céu estrelado piamente deslumbrado com a lucidez de uma época colorida.

            O relógio soltava os segundos de minutos a minutos e as horas iam passando amiúde. De manhã. 25 de dezembro. Natal. O verdadeiro dia. Já não havia quem o calasse ou quem o impedisse. Benjamin não fez cerimónia, nem por um segundo. Levantou-se, correu até à sala, e… parou intacto frente à árvore. A carta já lá não estava. “Mas, como?”, pensou ele num ápice. “Será que o Pai Natal me ouviu?”. As perguntas, de facto, eram imensas. A cabeça dele estava uns caos, mas não descansou enquanto não encontrou respostas concretas. Logo se apressou a ver no meio dos brinquedos, debaixo do sofá, atrás dos móveis até que…

            “É disto que estás à procura?” – disse-lhe uma voz vinda da porta de entrada. Não era o pai, nem outra pessoa qualquer… era…

            “Mamã!” – correu até ela sem pensar duas vezes. Abraçou-a num sufoco.

            “Tudo o que pedes, por mais difícil que seja, vai ter contigo. Sabes porquê?”

“Não…”

“Porque o que é teu será sempre teu.”

            Carlos soltou lágrimas felizes ao ver a mulher regressada do exército para umas férias merecidas junto da família, ao ver a mãe falar ao ouvido do filho num pranto, ao ver, aliás, o orgulho inundar-lhe a alma.