Sem (por cento) Amor – Parte I

Era uma vez, um rapaz… ou talvez um jovem… muito dado àquilo que o movia na sua atitude esguia com a vida. Decidiu… Meu Deus! Não. Está paupérrimo. Muito bem, se calhar começo pelo início. É aí o prelúdio de qualquer história, não é verdade? Então, certo dia, um homem muito bem composto, de cabelo aloirado aos caracóis, fez-se ao amor, entregou-se, não sei se por estar perdido, se por estar descaradamente rendido às mãos do destino, mas ele sabia que… Peço desculpa. Não. Tenho a sensação que já ouvi isto em algum lado. Reparai. Um rapaz bonito e riquinho que, por obra do acaso, encontra outro alguém com quem quer partilhar os momentos mais eternos da vida. É um exagero obviável. Todos os contos de amor começam assim, belos, bonitos e encantadoramente subtis. O ponto de partida nunca pode ferir demais, mas também não pode chatear sobreposse. Por isso, sabeis que mais? Uma boa fábula, como esta, bem sei que não entre animais, mas vorazmente consumida por um espírito animalesco, tem de ter a perícia de nos sacudir. Podia, sei lá, inventar ruas, destinos, países, quem sabe até personalidades… Não. Não o farei. Serei sincero, porque esta é a história mais sofregamente temível. Como é que eu sei, sem ainda ter dito uma única palavra sobre o início? Porque… eu entro nesta cantiga apaixonante tomada a dois, escrevendo-a ao meu jeito, passo a passo, com ele. Sofro? Muito. Porquê? Não sei explicar, é uma sensação antagónica entre a entrega e o desejo de repulsa que me consume cada veia, sem ter significado algum, estando cheio dele, por sua vez. Não quero que sofram também, portanto vamos ver esse rapaz loiro aos caracóis, óculos postos na cara e, assim timidamente a sorrir para a beleza que o rodeia. Não quero ser eu, mas no fundo sabemos que inevitavelmente esse é o meu fado.

Era noite, nem uma nuvem e o céu estava salpicado de luzeiros inconscientes. O loirinho de olhos verdes, aquele que vos falei há pouco, o Benjamin, tinha saído à rua para dar um passeio no jardim, vazio de presença alheia, era só a erva fresca numa harmonia com aquela brisa aveludada de esperança ao tocar no rosto quente de quem, por obra, se decidiu sentar naquele banco junto a umas árvores. Ele encostara-se lentamente para trás enquanto ouvia o murmúrio angustiante das folhas. Um zumbido que o preenchia à medida que folheava a leitura de um livro, que trazia em mãos, sobre o poder do canibalismo. Cada palavra era balbuciada entredentes numa negação do que não chegava. Ou, quiçá, já ali estava. Quem? Não se via, mas ouvia-se. Os olhos estavam incrivelmente postos nas palavras de uma cena de um beijo contraditório nos lábios. Afinal, a boca lambia o sussurro daquelas páginas na língua de Camões, mas… os ouvidos não, era uma voz que vinha de longe e que se aproximava à medida que a leitura avançava. Cantava. É isso. Era alguém que vinha a cantar. Que melodia tão… poderosa. Melancólica também. Parecia tão genuína. Benjamin, larga o livro, escuta. Não havia vivalma, caramba. Uma voz a ler, a outra a cantar e os olhares desencontrados. Não, não fazia sentido. Calma. Vamos respirar. Parece que, finalmente, ele lobrigou. Sim, reparou num indivíduo que ali vinha. Ficou, como dizer… embatocado. Afinal, havia razão para isso? Sim. Era um rapaz. Eu sei, eu sei que vos deveis estar a perguntar que mal tem, no fim de contas é só um pequeno homenzinho a vislumbrar-se pela cantiga que ecoava por entre os recantos da natureza. Eu percebo perfeitamente, mas, ainda assim, compreendei que eu estava vidrado, não sabia o que fazer… porventura teria corrido desenfreadamente sem fim, pegando na mão desse outro e fugido para um lugar qualquer. Oh, santo! E lá estou eu a querer meter-me naquilo que não me pertence. Benjamin, é isso, Benjamin, que mirava aqueloutro. E o livro? Já o tinha arrumado ali juntinho. Permanecia só de perna cruzada, braços no joelho e visão em frente. O seu tudo parou, a alma gelou de um modo incrédulo. Só queria ouvi-lo, para sempre. Que estranho. Porquê? Não o conhecia, nunca lhe havia visto as feições, nada. Mas mergulhou sem perdão na modulação que cantava. E espreitava, sem ser invasivo, sonhando mais do que o céu lhe era capaz de presentear, e ideou tanto, ali permanentemente sentado, que se ligou de uma maneira inacreditavelmente pujante. Foram os 3 minutos mais fortes da vida dele, sem gozo, pura franqueza. Apetecia-lhe somente ter-se disponibilizado para o abraçar até onde o sonho o transportasse. Mas não estava apaixonado, nada disso, foi uma faísca que incendiou uma chama muito especial dentro dele, que não desvaneceu de ânimo leve. Até que passara um carro naquela tensão de um para um. Na outra banda, uma olhadela desprevenida, porém um contacto estrambótico. Parecia que se embelezavam há anos, numa amizade duradoura. Que fascínio aquele contemplar de dois corpos parados e submissos, sem uma sequer reação. Ah! Espera. Um braço no ar com um aceno de mão… Ui… que arrepio. Senti, não, espera, sentiu, mas era eu… não, esquecei, é o Benjamin, isso. Sentiu-se, digamos, aprisionado no jeito como se podia expressar. Um frio que o gelificou desde a ponta do pé até à raiz do cabelo. Irra, o que é isto? Não se mexe? Aparentava-se um sentimento esquisito, uma química suave entre dois vultos e uma energia fluida entre dois corações.

Sentiam o mesmo, dava para ver, sem dúvida alguma, não havia forma de engano. As coisas estavam a objetivar-se muito bem. Deu uma pequena sensação de, no outro lado, ter havido um gosto, no entanto sem resposta, embora lá estivesse, ainda que escondida. A qualquer altura, Benjamin lançar-se-ia de pés, cabeça, tudo. Tencionava conhecê-lo. Sim. Queria. Quer. Mas… não teve coragem. Uma, duas, três investidas e nada. Pum! Uma rabanada de vento que remexeu as árvores num turbilhão e fez o livro, que descansava à beira do banco, cair no chão. O rapaz de acolá aproximara-se aos poucos, visto ter-lhe interessado a capa do cartapácio, vinha a admirá-la enquanto o de cá se ajoelhava a apanhá-lo. Subiu. Parou. Ficaram frente a frente. “Olá, tudo bem?”, foi o mais banal, sendo, ao mesmo tempo, o mais sensato por parte de Benjamin. O outro: “Sou o Alexandre. Está tudo.”. Ardiam por dentro, em ligações fogazes e fantasmagóricas, e perguntavam-se, sérios e senis de cabeça, qual seria o primeiro passo para terem uma conversa. No fim de contas, o que queriam? Por que é que se remeteram um ao outro sem conhecimento de causa? “Sentamo-nos?”, Alexandre foi o primeiro. “Claro! Já agora, cantas lindamente.”, atirou Benjamin com convicção. E dali rolou… e rolou… e rolou. Mantinham-se na fluidez do momento.

Esqueceram horas, minutos, segundos. Falaram. E estavam a viver o átomo. Imaginavam tão ardentemente que pairavam, sobre eles, nuvens encantadas de cupidez e promessas que se iam trocando carinhosamente. Que química impetuosa, de uma não sei quanta brutalidade que os uniu. É destino. De certeza que a vida não se enganou. Como é que estava a acontecer tão naturalmente? Rápido, é um facto, mas era mútuo. Algum dia o loirinho se imaginaria pegar no carro, bater-lhe à porta e dizer… “Vá, vamos ver as estrelas.”. E foi. Eles foram. Junto ao mar. Foi tão bonito, tão deles. Agarrados, no peito um do outro. Sossegados no silêncio da maresia poética que os acrescentava. Lá iam, assim, discretamente dizendo palavras delicodoces ao ouvido. A Lua observava-os, tomava conta e tinha a sabedoria de que a energia, que se desventrou como comboios andantes em hora de ponta nas mais altas capitais da Europa, sobrevivia como na primeira vez que os dois se viram. Eu sabia que era com ele que fazia sentido construir Amor. Paixão já sentia. Apre, lá estou eu, sempre a meter-me no que não me diz respeito… peço perdão, mas reconheço-a tão minha, não consigo explicar. Enfim… dizia, portanto, que estavam disponíveis para se gostarem, não havia mais nada, era intenso. Seguiram de mãos dadas para a praia e Benjamin escreveu-lhe no areal: “Gosto muito de ti”. Beijaram-se, pela primeira vez, e deliciaram-se de um encanto lingual divinamente satânico, não tendo forma de burlarem a vigilância das estrelas daquele dois em um. Derreteram-se e ouviu-se baixinho: “Rapaz, não te afastes de mim, por favor”. “Estou aqui não estou?”, respondia-lhe Alexandre o tempo todo. No fundo, Benjamin tinha a certeza que sim, embora se torcesse por dentro numa antítese entre o querer e o não querer. Estava a ser tudo perfeitamente delineado, conversas, encontros… seria mesmo verdade? Não estariam eles a viver um sonho? O porquê da vida os ter cruzado? Eram, claramente, questões que desabrochavam hora a hora e, evidentemente, havia uma só verdade: aproveitar. Depois, olharam-se. A felicidade estava lá, porque se sorriam enternecidos e só eles se importavam a si mesmos. Benjamin, recheado de galantaria, puxou-o pela mão esquerda, enquanto a direita se baixou para colher uma flor, ali por perto, à beira de um penhasco com cheiro a primavera. Ajoelhou-se e, tal como o momento pede, fez as honras, perguntando-lhe se queria namorar com ele. Nem um comentário. “Sim!”, Alexandre exclamou eufórico. Os lábios, por fim, colaram-se sem destino à vista, restando-lhes somente o que resistia da noite para permanecerem colados um no outro, escutando, embalados pelo enredo romântico da noite, os sonidos da maré. E a Lua. Oh! A Lua! Estava brilhantemente vestida de orgulho. Uma beleza sem igual.

Continua…