– Série – MARIA AMÉLIA

EPISÓDIO 1

ANO DE 1990

         O avião da companhia aérea CAPN (Companhia de Aviação Portuguesa Nacional) descola do Aeroporto de Lisboa no dia 20 de outubro de 1990 com destino a Nova Iorque. Rasga os céus, numa longa viagem de horas, em direção àquela que é considerada, por muitos, a cidade que nunca dorme, ou, aliás, também a cidade onde as maiores bolsas de valores mexem a um ritmo avassalador, depois de em 1987 terem cedido a uma Segunda-Feira Negra, calcada por uma tempestade devastadora, onde muitos foram os estragos causados. Volvidos esses 3 anos, o mercado regressou à ribalta. Por ironia do destino, ou não, estamos de novo no mês de outubro e, às 20 horas locais, Maria Amélia de Aragão vê-se chegada, de malas na mão, duas, nomeadamente, ao aeroporto de terras nova iorquinas.
         Cá fora, a azáfama que já se conhece. Não é muito diferente dos dias de hoje. Carros, táxis, transportes públicos, o metro, claro, enfim pessoas num stress incalculável de chegarem aos seus deveres diários. O sol já se pôs e, mesmo numa noite fria de outono, onde o vento já espreita por entre os casacos grossos vestidos, ninguém se nega a fazer aquilo que tem de ser feito. Maria Amélia apanha o primeiro táxi que consegue. O motorista arruma, gentilmente, as bagagens no carro, enquanto, de seguida, abre a porta à senhora para que entre sem sujar as mãos no puxador da viatura. Lá seguem caminho adiante sem muita conversa. Aliás, Amélia, como muitos a tratam, sem primeiro nome junto, é de uma elegância sem igual. No seu documento pessoal contam-se 50 primaveras. Há quem diga que já é meio século, ela gosta de embelezar, dizendo que é vida a mais para os olhos de muita gente. É jurista de vocação há vários anos e estudou nas mais altas escolas universitárias da cidade, apesar de não haver muitas. Gosta, por isso, de se vestir bem, sempre trabalhou em tribunais, sabe qual é a conduta. É autoritária. Para ela as mulheres são um símbolo da magnitude da vida em sociedade, sendo essa a sua enorme luta diária: o feminismo, que já lhe valeu muitos prémios em Portugal. É uma mulher de palavra, verdadeira, prepotente e ácida quando as circunstâncias assim o exigem, no entanto tem um coração que se derrete quando lhe tocam, quase que delicadamente, nos pontos mais fracos.
          Uma travagem suave e finalmente no Hotel onde vai ficar hospedada. Um dos melhores da cidade: Hotel New Dream, bem que podia ser a metáfora perfeita para o que se avizinha. Foram uns meros 20 minutos de viagem que passaram entre conversas sobre os altos e majestosos arranha-céus citadinos ou a confusão desenfreada de uma metrópole recheada de personalidade. As malas, essas, são levadas por um dos empregados do estabelecimento, enquanto o pagamento ao taxista é feito em dinheiro com um piscar de olho suspeito.
          Maria Amélia retirou gentilmente a matrícula para registo e o número de telefone que estava afixado num dos vidros do carro. Parece que o taxista lhe pode servir de isco para a sua missão nos Estados Unidos da América que, diga-se de passagem, é bem mais cautelosa do que aquilo que parece. Entretanto, ao entrar no quarto que lhe foi destinado, 120, e após arrumar as malas dentro dos armários, encontra, por cima da secretária, de frente para uma vista desocupada sobre a paisagem citadina, uma carta de boas vindas.

         Bem-Vinda, Maria Amélia de Aragão. Espero que já esteja bem instalada no seu confortável quarto de 5 estrelas. Sei que já será de noite quando chegar à magnífica cidade de Nova Iorque e que amanhã é o seu dia de folga. Por isso, queremos contar consigo já daqui a 2 dias para uma reunião de extrema importância.

        Despeço-me com amável cumprimento.

       Javier Hanz
       Secretário-Geral da Liga da Nação da Paz

       Lê com um sorriso tímido nos lábios, no mesmo momento em que se senta um pouco na cadeira de veludo que tem ali à mão e, em meia dúzia de teclas, marca o número de alguém especial.
       – Já cheguei.
       – E… pronta? Tens uma longa batalha pela frente. – falam-lhe do outro lado da linha.
       – Meu amor, sabes que já nasci pronta. Com o desaparecimento do teu pai tive de me reinventar. Não tenho medo…
       – Eu sei, eu sei. – interrompe. – És minha mãe, tenho a obrigação de me preocupar, de ser o teu porto de abrigo…
       – E aí por França? É só trabalho ou já te meteste na cama com alguém?
       – Mãe… com esta epidemia que anda por aí? Nunca na vida. Faço o que me compete na empresa e pouco mais.
       – Bom… Não te deites tarde. Amo-te muito. Beijo. – Amélia despede-se.
       Pousa o telefone no encaixe, arruma o bilhete dentro da mala e veste o pijama que já havia tirado para fora inicialmente. Segue-se a casa de banho para o último esvaziamento do dia, antes de uma boa lavagem de rosto e mãos. Porém, a indiferença não lhe fica atrás dos olhos pesados que até poderiam ser cansaço, mas que pousam sádicos sobre uma vista atenta da cidade através das janelas do quarto. Olha para o céu, ainda que difícil, e deixa-se estar numa reflexão profunda.
        “Só me podes ter dado este desafio, porque sabes que sou inteiramente capaz.”, convence-se a si mesma enquanto se hipnotiza na confusão das multidões lá em baixo.
        O dia foi longo e, para tapar um pouco as onze da noite que já se sentem no corpo, passa as mãos por um dos seus livros favoritos: uma história que junta guerra com arte e mais uns romances lá pelo meio para amortizar a queda de algo mais dramático. Ao seu lado, tem um bloco de notas onde regista cada detalhe daquilo que vê, daquilo que lê e daquilo que ouve. Nada lhe escapa.

EPISÓDIO 2

(2 dias depois…)

Uma última borrifadela no frasco de perfume dos mais caros do mercado, deixando um sabor de frutas do bosque pelos corredores do Hotel até à sala do pequeno-almoço. Amélia acordou cedo, praticou a sua ginástica matinal no quarto e, depois de um banho revigorante com cremes e a tudo a que teve direito, desceu até ao andar das refeições. Estava particularmente elegante, naquele dia. Comeu pouco, até porque estava num estado de ansiedade com nervos à mistura. Um pão, uma manteiga e um sumo de laranja chegaram para encher o estômago.
          No setor leste de Manhattan, ergue-se um edifício espelhado com a sua franqueza, não ficando atrás de nenhum outro ali à volta. Liga da Nação da Paz (LNP) é o nome que se ecoa por todos os media de informação mundiais como a mais importante organização na resolução da guerra e monitorização da saúde, da paz e dos direitos fundamentais dos direitos humanos. É aqui que tudo acontece e onde as mais sonantes decisões internacionais são tomadas.
         Sala pronta. 15 lugares num espaço amplo forrado a janelas. Cada um com um copo vazio para a água, uma pasta e uma caneta gravada a ferro e oferecida pelo departamento de secretariado. Enquanto todos os destacados se vão dirigindo para a salão, Amélia tenta, por entre escadas e elevadores, encontrar a direção certa o local certo, no entanto, e no meio do stress por falta de sentido de orientação, não pode deixar de ouvir uma conversa entre dois homens que decorre numa das salas do edifício com a porta encostada. Sem que a vejam, pousa cuidadosamente a mala por cima do parapeito de uma das janelas, fingindo procurar alguma coisa, ao mesmo tempo que desperta o seu sentido auditivo para o que acontece nas suas costas.
         – Doutor Javier… temos de fazer alguma coisa. Os governos estão a apertar connosco, o seu mandato de 10 anos está a chegar ao fim…
         – Peter, Peter… por favor, chega. Eu não posso fraquejar num momento frágil como este. Nem eu nem ninguém. Há uma guerra para resolver…
         – Como? Os governo norte-americano está desposto a tudo. Bem vimos que esta epidemia mundial foi…
         – Fale baixo, então? Endoideceu? Não podemos, por nada, meter a pé na argola. Muita cautela, ouviu? – explica-lhe sem hesitar. – Vá e agora temos uma reunião em mãos, vamos embora.
         Os dois, minutos a seguir, saem, trancam a porta e seguem para a sala, onde já estão todos reunidos para os receber. Levantam-se em sinal de respeito e, no fim, sentam-se em conjunto. Amélia congela o olhar frívolo sobre o ambiente de tensão.
          – Bom dia e obrigado por estarem presentes na primeira reunião de urgência internacional do último trimestre do ano. – começa por dizer Javier. – Hoje recebemos cinco novos elementos na nossa equipa de secretariado, três vindos de França, a Sophie, o François e o Pierre, um de Itália, Lorenzo, e a nossa primeira portuguesa desde o começo dos trabalhos da LNP, Maria Amélia. Sejam muito bem-vindos.
           Um aceno de cabeça em sinal de respeito por parte dos mencionados.
           – A nossa luta é diária e, mais do que nunca, temos um enorme desafio em mãos… Peter, os gráficos por favor. – ordena-lhe enquanto o monitor a cores é ligado diante de todos. – Dia 2 de agosto, iniciou-se a libertação do Kuwait, onde os EUA, em conjunto com as nossas diretrizes e tropas no local, tentam a todo o custo estancar a fúrias das tropas iraquianas.
            – E a epidemia gripal mundial que cresce de dia para dia? Quais as medidas? – intervém um dos elementos.
            – John, eu percebo essa sua observação, no entanto o nosso departamento mundial de saúde ainda não decretou Estado de Pandemia, por isso compreendo que, até agora estamos num bom caminho?
            – Bom caminho? Temos um vírus que já está presente em 100 países, 500 mil infetados e 100 mil mortos. Os números crescem de dia para dia, com 10% de taxa de letalidade. Não estaremos a ser brandos demais…
            – Eu acho que não devia entrar em campos pouco certos. Não conhecemos ainda nada sobre esta gripe e as autoridades de saúde não estão preocupadas para já. A nossa preocupação deve ser essencialmente esta guerra no Golfo.
            Amélia, perante o pequeno debate, respira fundo e baixa o olhar sobre as folhas que tem na frente. Mexe na caneta enquanto ouve as fundamentações do Secretário-Geral e do seu assistente.
            – Está tudo bem consigo? Na reunião parecia um pouco distante. – confidencia-lhe Peter ao sair com Amélia pelos corredores do edifício.
            – Sim, tudo… quer dizer, acho que deu para perceber qual o nosso foco.
            – Sabe que pode contar comigo para o que precisar certo?
            Uma paragem, seguida de um silêncio.
            – Disse que iria apresentar-me o meu escritório, certo? 
            – Sim… claro, por aqui, por favor.
           Os dois continuam o caminho sem uma única palavra. Sobem mais uns andares e instalam-se no 30º. Logo de frente, Anna, na sua secretária, que será também, e para além de todos os escritórios que por ali se dispõem, a assistente direta de Amélia, tratando de toda a papelada e chamadas que sejam mais urgentes. As apresentações foram feitas com virtuosismo, só falta mesmo o espaço. Peter abre uma das portas do largo corredor e convida a senhora a entrar.
            – E pronto. É aqui.
            – Grande, cómodo… uma vista incrível. – Amélia vai descrevendo à medida que olha em 360º. – Pode fumar-se ou…?
            – Desde que não apague as beatas na parede, por mim…
            – É difícil trabalhar-se neste ramo de atividade política?
            – Tem os seus defeitos, apesar de que todas as qualidades compensam, não é verdade? – diz-lhe Peter com o olhar sereno sobre os dela.
            – Diga-me, hoje… à noite. Aqui na cidade. Recomenda-me alguma coisa? Assim um sítio comfortable and cheap para jantar?
            – Permita-me que lhe faça companhia esta noite. Pode ser?  

EPISÓDIO 3

           Anoitece em Nova Iorque. A correria do trabalho já aliviou, no entanto não se deixa desaparecer. Há o ruído dos táxis amarelos nas grandes avenidas, o metro grafitado que, a cada paragem, descarrega mais uma mão cheia de pessoas prontas a viver a noite junkie de uma cidade ultra movimentada e os passeios que ganham vida numa imensidão de largas conversas entre quem lá passa. As luzes, os cheiros e a extravagância de uma metrópole em constante mudança.
           Sem alaridos, Peter espera, impaciente, por Maria Amélia, que teima em não chegar. Está na Quinta Avenida. Movimento não lhe falta, porém a convidada de honra nunca mais aparece. Tenta não se mexer muito para não se perder ainda mais na multidão noturna. Espera. Lá vem ela. Chega de táxi e manda encostar no local previamente combinado. Ainda foram alguns minutos de viagem. Posteriormente, sai da viatura sempre com o seu toque de personalidade e de boa falante. Está frio, por isso não quer desfazer-se do casaco de pelo que a reveste. Encontra-se, enfim, com quem a espera. Cumprimentam-se com um único beijo na face, no meio de um certo atrevimento da parte dela.
           Restaurante sim, restaurante não, lá seguem juntos rumo ao destino que Peter amavelmente escolheu para presentear a sua mais recente amizade de trabalho. Roger Benny, o nome que se inscreve num farto letreiro na parte de fora. Ambos olham para o aspeto exterior, com algum desagrado da parte dela. Lá fazem as honras e entram com a simpatia que lhes compete. Ele tira-lhe o casaco, ela não quer, ele puxa a cadeira, ela manda-o sentar-se, ele chama o empregado, ela diz que também o consegue fazer, ele sorri com graça, ela acha-lhe piada, mas logo tranca os lábios, ele pede o vinho mais saboroso da casa, ela entreolha-o, ele manda fazer os pratos do menu, ela começa a ferver, ele puxa conversa, ela…
            – De um pedido de sugestão para um jantar a dois. Vejo que não perde uma.
            – Emelie…
            – A, A, feche um pouco a vogal. A – M – É – L – I – A. Portuguese
            – Está a ver? Já me está a ensinar algo.
            – Não me respondeu à pergunta, doutor. Qual é a razão do jantar “a dois”?
            – Só Peter, vá lá. AméliÁ. – ele brinca com a situação.
            – Peter, vim para esta cidade com um propósito muito claro. Lutar pelos direitos de quem mais precisa e honrar as nações que represento. Nada mais.
            – Não disse o contrário. Acha que a quero comprar?
            – Tenho a certeza que se o fizesse ia dar-se pessimamente. Tenho 25 anos de jurisdição. São muitos anos a servir o meu país. Passei por um severo regime de opressão, por isso sei muito bem o que é uma guerra e quais os interesses.
            – Tem a certeza que quer falar de trabalho?
            – Fale-me de si, então. – diz Amélia, servindo-se de um gole de vinho.
            – Sou britânico… vá, talvez seja um pouco mais do que quero fazer parecer. Porém, sei que tudo aquilo que eu faço tem um cunho muito pessoal que nunca passa a barreira do extravagante. Estou nesta cidade há 20 anos. É aqui a minha vida.
             – Esperava que até fosse mais cliché, diria. Saiu-se bem.
             – E a Emelie?
             – Bem, estou a ver que não acerta com o meu nome. – lança um sorriso.
             – Tem que me dar tempo…, desculpe. – Peter solta uma gargalhada. – Bem, mas, como dizia, nunca teve nenhum relacionamento sério…?
             – Com licença, os vossos pedidos. Posso? – interrompe um dos empregados.
             Sem que houvesse resposta do outro lado, a comida chega com uma ordem de permissão e rapidamente se desvanece o interesse de responder à pergunta. O espaço à volta não chama por chiqueza, no entanto é confortável e barato. Era isso que se pedia. O vinho, esse, já vai no fim e as rodadas não param de chegar. Os dois parecem já estar mais alegres que o normal e é logo na hora de se pagar a conta que a própria Maria Amélia deixa que ele se chegue à frente, o que não é nada o seu estado de normalidade. Apanham um táxi rumo ao Hotel New Dream, onde ambos saem às risadas, sem que tomem por certo as horas. Sobem descontraídos. Botão do elevador puxa um beijo atrevido no pescoço um do outro, a gravata desregulada puxa uma mão suave no cabelo dela e assim vão divertidos até ao quarto.
             – Ah! Que enraçado. É o seu quarto de hotel… Que disparate, esta não é a minha casa. Oh meu Deus, os meus cães… – diz Peter, fazendo festas com a mão sobre os lençóis.
             – Acho que estamos um pouco alterados, “doutor”. – ela ri-se enquanto pousa a mala por cima da secretária.
             – Ui, doutor. Tão bom. Gosto tanto que me chame assim…
             – Mas, ainda no jantar…
             – Shhh! – Peter levanta-se de repente e tapa-lhe a boca com as mãos. – Que se lixe o jantar. Só cá estamos nós.
             Amélia está ofegante. Engole em seco e deixa-se levar nos lábios dele. Beijam-se e lentamente caem para cima da cama. A roupa voa e vai caindo a preceito no chão. Nus numa dimensão que nenhum deles conseguiu prever. Foi tudo tão célere. Uma noite longa com espaço para uma sensualidade de dois corpos famintos que rapidamente se descompõem.
             8 da manhã. O dia no escritório começa dali a 1 hora e os dois acordam cada um para seu lado. Ela veste o robe, vai à casa de banho e acorda-o sem piedade. A cabeça lateja e parece que o pequeno-almoço vai ser servido no quarto.
             – Quer café? Acabadinho de chegar. – pergunta Amélia.
             – O que é que nos deu? Fui eu não fui?
             – Vá… Eu também tive… Bem, mas… como é que isto foi acontecer?
             – Não sei, só me lembro das suas…
             – Croissants! Quer? Uau! Tão bons. Quer diria! Os melhores desta cidade, não? – ela corta a conversa com ironia enquanto se apressa na casa de banho.
             – Eu peço desculpa, mas no fundo não me arrependo da noite que passámos.
             – Peter, eu percebo tudo isso, mas são quase 9 da manhã e temos uma reunião importante com o doutor Javier… Por favor, colabore.

EPISÓDIO 4

            Os relógios aceleram e a manhã começa petulante. No edifício central, já se anda de porta em porta para que o trabalho não pare. Javier, por outro lado, faz-se acompanhar da sua assistente pessoal até ao escritório, enquanto analisam uns papéis. Entretanto, Peter chega, como sempre, com o seu motorista privado, depois de uma noite atribulada. Foi a casa e apressou-se com a máxima rapidez para que a roupa não fosse a mesma e não houvesse suspeitas levantadas. Encontra-se com o secretário-geral para a reunião matinal com cada membro do secretariado.
            Maria Amélia clicou no botão do elevador diretamente para o andar onde se vai encontrar com o chefe máximo da organização. Pousa a mala no escritório e segue com duas pastas nas mãos.
            – Posso? Com licença. – pergunta educadamente.
            Peter olha-a num sufoco.
            – Claro, sente-se. – ordena gentilmente Javier.
            – Doutora, obrigado, desde já, por ter vindo. Hoje estamos a falar com cada um de vós para perceber em que ponto da situação estamos e quais os planos urgentes onde vamos começar já a atuar. Um deles é a guerra no Kuwait.
            – É isso mesmo. O doutor Peter resumiu na perfeição qual o nosso objetivo.
            – E a epidemia gripal?
            – Tem dúvidas sobre esse assunto, doutora Amélia? – questiona Javier.
            – Se me permite, tenho estas duas pastas comigo que trouxe de um estudo aprofundado que fiz, há uns dias, ainda em Portugal. A União Soviética está a cair, a guerra terminou e há uma segunda guerra a acontecer no Golfo Pérsico. Com isso, estima-se que as economias da quase extinta URSS e dos EUA subam acima da média, por causa da guerra.
            – E acha que não é um excelente propósito para a Liga da Nação da Paz estar nessas mesmas frentes de combate?
            – Claro que sim, doutor Javier. O que não se compreende é que uma epidemia gripal a nível mundial, que está a matar milhares de pessoas de dia para dia e está presente em mais de 100 países, não receba um pingo de atenção.
            – Eu compreendo que…
            – E a SIDA? – Amélia volta a interromper. – Milhões de pessoas infetadas no continente africano. Onde está o departamento de saúde da LNP? Está no terreno? Quais são as conclusões? Doutor, ninguém tem coragem para se chegar à frente, no entanto temos duas pandemias a acontecer ao mesmo tempo e estamos a deixar que milhares de pessoas morram todos os dias, sem fazermos nada!
            – Calculo que esteja nervosa e possamos continuar esta conversa noutra…
            – Doutor, não. Eu vim com uma missão. A de honra. Honrar os direitos humanos e todas as nações que não têm voz para o fazer. Estamos preocupados com uma guerra a chegar ao fim e outra que só vem potencializar a economia norte-americana, quando na verdade temos um gravíssimo problema de saúde pública global… Onde está o departamento de saúde? Onde está o doutor Javier Hanz?
             – Bem… acho que…
             – Não, Peter! Por favor, deixe a doutora Amélia continuar. Estou curioso para perceber se o seu estudo de “mercado” português se concentra em meras suposições.
             – 10 milhões de pessoas infetadas com SIDA em África, pode abrir e ver os gráficos. 700 mil pessoas infetadas com o vírus gripal POD-9 em dados atualizados hoje às 8h35 da manhã pela agência nacional de imprensa norte-americana. Não tarda chegamos à barra de 1 milhão de doentes. Para fazer frente ao Iraque, os EUA pretendem deslocar ao todo 700 mil homens até ao fim da guerra, tendo já deslocado 500 mil…
             – Sim, estou a ver que não andou a brincar depois de ser convidada para o cargo no departamento de secretariado.
             – Doutor, a guerra enriquece muito, mesmo muito, mas a saúde é o elo mais frágil da sociedade… não será tudo isto uma jogada?
             Peter deixa cair o copo que tinha na mão propositadamente.
             – Peço desculpa, vou chamar alguém… se calhar o melhor era… doutor Javier, podíamos continuar mais tarde, não? Não sei… diga-me você?
             O secretário-geral não se movimento um milímetro que seja. Silencia-se por breves segundos. Maria Amélia fica inerte na cadeira sem tirar os olhos da frente.
             – Vou fazer 10 anos, doutora. 10 anos de uma luta constante. Cheguei à LNP da mesma forma que a senhora. Pronto a seguir a minha missão de honra. Fui subindo em flecha, mas fui barrado. Ser secretário-geral é muito menos do que se pensa. Sou controlado a cada passo.
             – Doutor…
             – Peter, acho que estou cansado, sabes?
             – E vai contar assim, sem meias palavras? Perto do perigo?
             – O que é que me pode acontecer? Vou sair do mandato daqui a 2 anos.
             – Estou a mais? – intervém Amélia.
             – De todo. E posso dizer-lhe que… infelizmente… a sua análise bate certo. Esta gravíssima epidemia não passa de um golpe organizacional entre um grupo de políticos mundiais.
             – Espere… Quer dizer, então, que… estamos a falar de um vírus fabricado em laboratório e a ser usado como arma biológica…?
             – Doutora Amélia, vou-lhe pedir que tudo isso que acabou de concluir deve permanecer na sua cabeça. Independentemente do que virá a acontecer, você trabalha no corpo de secretariado da Liga da Nação da Paz, a organização máxima no controlo da segurança e da saúde pública internacional.
             – Tenho de ficar calada…
             – Qualquer desobediência, garanto-lhe que jamais regressará à terra de onde veio. – diz-lhe Javier de olhos em riste. – E já que tudo isto aconteceu fora do planeado, vou pedir-lhe que seja o meu “braço esquerdo” e me faça um favor gigantesco. – finaliza.

EPISÓDIO 5 (FINAL)

          A noite passou-se tranquila na cidade, sem grandes alaridos, no entanto as horas passam e, não tarda, o corpo de secretariado da Liga da Nação da Paz vai falar aos media internacionais sobre todas as medidas que considera importantes adotar numa altura de guerra e epidemia gripal. Maria Amélia está fechada no escritório. Está impávida e serena frente aos janelões de vidro ao lado da sua secretária. Foi-lhe incumbida a tarefa de ser a porta voz, enquanto coordenadora, de todo o departamento de secretariado e fazer um texto discursivo sobre a situação difícil que o mundo atravessa. Sente revolta por estar a compactuar com um crime, mas, no fundo, as dúvidas seguem de forma galopante. Volta a sentar-se na cadeira e a fazer deslizar a caneta pela folha que vai usar de cábula para o discurso final. Está quase no fim.

          (…) Por tudo isto, sei que a minha missão enquanto jurista neste corpo de secretariado fica encerrada por aqui. Não consigo cooperar num crime organizacional, onde os valores políticos dos países mais ricos abafam a pobreza dos mais fracos. A Liga da Nação da Paz é uma organização séria, com valores e princípios, porém está a ser usada para ser o veículo de uma paz mundial de fachada a favor da guerra dos EUA e do Iraque no Golfo Pérsico e de um vírus produzido em laboratório usado como arma biológica de ataque à população de todo o mundo. Estamos a fabricar criminosos. Eu estou fora e se eu morrer já sabem aonde devem recorrer.

          Não deixa qualquer palavra por escrever. Desabafou e reiterou tudo aquilo que quer fazer passar cá para fora. Contudo, é um texto secundário que optará por guardar. Durante a manhã esteve ocupada em redigir um outro para entregar à revisão oficial do secretário-geral. A confusão permanece na sua cabeça e é um obstáculo gigante em qual caminho deve seguir. Entretanto, batem à porta e, antes de mandar entrar, esconde com rapidez algumas das folhas na gaveta.
          – Posso?
          – Claro que sim, Peter. Entre. Tenho já todo o texto preparado para amanhã.
          – E nós? Ontem…
          – Ontem foi ontem. Não será a regra.
          – Tivemos uma noite juntos, fomos jantar novamente… É tudo uma questão de trabalho? Ou aproveitamento de valores hierárquicos?
          – Por favor, se eu quisesse subir aqui dentro, eu bem saberia a quem me juntar.
          – Vai dizer-me que não sente nada por mim? Nem uma pinga?
          – Pinga só mesmo o vinho fabuloso que me brindou ontem em sua casa. Fico-lhe a dever uma. Estou só com a cabeça fora daqui.
          – Por causa do discurso de amanhã?
          – Entre a honra e o crime. O que é que faria?
          – E se pudesse juntar os dois?
          – Não é possível.
          – Há crimes que são de tal forma tão bem executados que, no fim, serviram apenas para trazer o bem generalizado a uma população inteira.
           – E, para isso, matamos inocentes que têm definitivamente de se entregar a um crime organizacional sem qualquer culpa?
           – Estamos todos juntos nisto.
           – Oiça, Peter. Garanto-lhe uma coisa. Tenho uma vida pela frente, é verdade, mas não tenho medo de ser morta por fazer o que teve de ser feito.
           A conversa termina com um ressentimento de parte a parte.
           Noite de outono que veste a cidade de preto e branco. Nova Iorque sempre se viu bela aos olhos de quem a visita. Ninguém esquece que lá passou e as maravilhas que encontrou em cada rua ou passeio mais escondido. Amélia deita-se depois de um banho escaldante onde aproveitou para relaxar o máximo. Está na cama, apenas com a luz do candeeiro acesa, com o livro que a tem acompanhados todos estes últimos dias. Faltam 5 páginas e, antes do grande dia, quer terminá-lo com o prazer de olhos postos nas palavras.
           Os preparativos no auditório da organização ganham forma. Um púlpito com um microfone para todos os intervenientes falarem, acrescentando-se a bandeira dos Estados Unidos da América e da própria LNP a fazer de cenário para longos minutos de pedidos de esclarecimentos. Maria Amélia fala atentamente com Javier Hanz que se mostra entusiasmado com o grande passo que aquele momento simboliza.
           – E, então? Ansiosa?
           – Nervosa, doutor. Ter sido promovida a coordenadora interna do departamento é uma grande responsabilidade, ainda para mais falar para todos os ouvidos do mundo.
           – O seu discurso está maravilhoso. Tem tudo para triunfar.
           – Claro… assim o farei. – diz-lhe com um singelo repúdio mental. – E agora desejo-lhe a maior das sortes. Seja corajoso.
           Os holofotes estão ligados e as objetivas em primeiro plano para focar tudo aquilo que será dito pelo secretário-geral da LNP. Já muitos, pelo mundo fora falaram publicamente, falta Javier Hanz num pedido feito pelos altos comissariados.
           – Anuncio, por isso, que a Liga da Nação da Paz ativará de forma urgente e célere o departamento oficial de saúde que ditará as medidas mais restritas para esta epidemia gripal sem precedentes que devasta tudo e todos. A guerra no Golfo será para continuar numa cooperação ativa com as tropas dos EUA. Temos o dever e o direito de lutarmos com todos os valores pela paz mundial.
           Na agenda de oradores, sobe, seguidamente, Maria Amélia, que treme sem que a vejam. Uma luz forte que lhe limpa a cara de angústia. O coração que palpita em alucinantes cortesias. A respiração em gritantes opressões. E um ambiente de corta à faca. Tem os papéis à sua frente. Cabe-lhe ser a maior voz de representação da sua equipa e como é que trabalharão no futuro.

            ANO DE 2010

            Guardei um dos discursos no bolso do blazer. Estava a arder, no entanto fui contra os meus princípios e fui contra a honra da minha nação. Nunca me esquecerei do crime pelo qual compactuei todos estes anos. Continuo calada. Fi-lo por amor àquele homem que, gentilmente, liderava o mais poderoso secretariado do mundo. Tenho 70 anos, estou numa cadeira de rodas e escrevo a última página deste diário no jardim de minha casa, em Nova Iorque. Quero que a minha filha e os meus netos o leiam quando finalmente desaparecer.

E de uma coisa tenho a certeza: o nome Maria Amélia jamais será esquecido.

(Esta série é uma obra de ficção escrita, por isso qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência).